22 de março de 2011

“TUDO SUJIS” NA EDUCAÇÃO

Professor Evandro Cristofolini

       Para quem teve sua infância e adolescência até as décadas de 80 e 90, o “tudo sujis” era um termo muito utilizado nas longas tardes de domingo e na hora do recreio na escola, momento em que os meninos se reuniam em torno do chão batido, com os bolsos da calça e uma das palmas da mão lotados de quilicas.  Era a maior diversão.

         Quando a sua quilica estava sob a mira do outro jogador, dava-se uma outra disputa muito rápida, a de quem falava primeiro o “tudo sujis” ou “tudo limpis”.  O “tudo limpis” era dito por quem estava na vez de jogar, para que o terreno fosse limpo, tornando o percurso até a outra quilica o mais liso e uniforme possível.  Já o “tudo sujis” era uma estratégia utilizada por quem estava para ser atacado.  Vencia quem falava primeiro.  Se o “tudo sujis” vencesse, então o jogador poderia preparar sua defesa, tornando o percurso até sua quilica o mais dificultado possível, com pedrinhas, galhinhos de mato, grama ou qualquer outro obstáculo.
      
        Havia ainda o “tudo mudis” e “nada mudis”, que poderia dar ou não o direito de o jogador substituir a quilica atual pelo “bagulinho”, uma outra bem pequena, ou até um pedaço de uma (conhecido como cascalho) ficando assim mais difícil de acertar.

       Comparo essa brincadeira que hoje está quase extinta a nossa realidade no ambiente escolar.  Como professor da rede estadual há 8 anos e conversando com colegas há mais tempo na função, fica fácil constatar que alguém já deu um “tudo sujis” para a educação há bastante tempo.  Basta observar.

       Como consequência estamos em um processo de falência do sistema educacional, que em minha opinião é irreversível, até chegarmos ao seu sucateamento por completo.
Falo por experiência em escolas onde já trabalhei e trabalho, e sem medo da cara feia daqueles (na maioria fora de sala) que são adeptos do “nunca esteve tão bom”!!!
      
        A educação está sendo pensada apenas com fins estatísticos, nada qualitativo. A maioria dos alunos acham que vão estudar só na faculdade e que na escola, até o ensino médio, é só uma etapa antes do vestibular! Acham que responsabilidade, pontualidade, cordialidade, respeito e bons modos são coisas ultrapassadas. Querem é viver a geração malhação!
Segundo os entendidos de gabinete, reprovação menor é igual a sucesso na escola, na formação dos jovens, dizem que a reprovação não contribuirá em nada ao educando, mas e a aprovação sem o mesmo saber o básico contribuirá em que?...
     
         Assim vamos tendo estudantes concluindo o ensino médio parcialmente analfabetos, estes beneficiados em grande parte pela tal recuperação paralela, que só veio para favorecer a malandragem.  É um oba oba geral.
Nossas escolas estaduais teriam que ser mantidas pelo seu órgão mantenedor, que é o Estado, desde sua parte estrutural até em relação a ferramentas e materiais de expediente e pedagógico, necessários para o trabalho de seus funcionários.  No entanto, o que acontece na prática? O dinheiro que o Estado manda é insuficiente. O governo vai ficando cada vez mais ausente.  Enquanto promoções e vendas de pastel são feitas, enquanto os pais vão contribuindo financeiramente com as escolas públicas, se espalha pelo Estado a descentralização do poder, engordando a máquina administrativa. Gente empilhada em secretarias por toda Santa Catarina. Cada funcionário uma família, cada família uma porção de votos! E alegria mesmo tem os governadores, que tem aposentadoria vitalícia após o mandato! Que beleza!...

         Não bastasse isso, as escolas já há algum tempo, foram proibidas de explorar suas cantinas, o que lhes rendia um bom dinheiro, para livrar umas despesas.  Mas o que faz o Estado permitir então que uma empresa terceirizada venha ocupar estes espaços públicos e faturar? Percebo em minha escola muita reclamação dos alunos. Será mesmo que uma melhor alimentação deles é o que interessa?...
       
         Na história vemos que os imperadores romanos já haviam deduzido que a manutenção da ignorância da massa, mantendo-os pacíficos através do pão e circo, lhes dava total segurança no usufruto do poder. E não precisamos exercitar muito o cérebro para perceber certa semelhança nos dias de hoje.
Quero ver quando os policiais, médicos, o pessoal dos fóruns e outros órgãos do governo (incluindo as SDRs) tiverem que fazer promoção para pagar as despesas da casa, que tiverem que pagar pela água e café consumidos...

          Não estamos ainda no fundo do poço, mas infelizmente já conseguimos vê-lo.  Chegaremos lá quando não tivermos mais jovens interessados em ingressar no magistério ( o que já está ocorrendo), quando os funcionários, pais e a comunidade tiverem a consciência de que já pagam impostos demais para oferecer o seu ombro e “carregar nas costas” uma instituição pública, e, por fim, quando as escolas estiverem aos pedaços, sendo interditadas pela vigilância sanitária.  Quem sabe aí, após uma decadência completa, que desmascare as estatísticas e revele para o mundo que no Brasil e em Santa Catarina, investimento em educação é apenas um verbete usado em palanque de discurso político, poderemos ter esperança de um “tudo mudis” no nosso cenário educacional.

        Cabe agora perguntar, será mesmo que os nossos dirigentes irão se interessar em um “tudo limpis” na educação? Bem, caso contrário, “nada mudis”!...

OBS: esse texto expressa a opinião do autor, não necessariamente é a opinião dos funcionários da escola como um todo.

4 comentários:

Prof. Ricardo Mees disse...

Concordo professor EVANDRO. Nós professores acabamos exercendo OUTRAS FUNÇÕES, que não competem a nós. Temos que ser pais, mães, médicos, psicólogos, enfim, funções não comuns a professores que estudam 4 anos e ão se preparam para ter que enfrentar tais situações. A educação só irá para frente quando CADA UM se responsabilizar pelo que é sua obrigação. GOVERNO: oferecer subsídios MÍNIMOS (quem nem temos hoje) para uma educação de qualidade. PROFESSOR: mediar e oferecer meios para a aprendizagem do educando. EUCANDO: assumir com responsabilidade o fato de não apenas FREQUENTAR a escola, mas sim, de VIVENCIÁ-LA.
Tenho dito!

Iara Emanuela disse...

Professor,como sempre com seus excelentes textos,e polêmicos,do jeito que eu gosto. Não preciso nem citar que concordo plenamente.Me revolta muito ler isso , sabendo que está acontecendo a todo instante no país inteiro..inclusive na "nossa" escola,pessoas querendo se beneficiar em qualquer situação. É preciso combater o mau pela raíz,pelas pequenas coisas,mesmo sabendo que isso não é fácil. Não estou aqui para citar nomes,ou julgar ninguem. Cada qual sabe se o sapato serve ou não. Mas saindo do nosso âmbito escolar,também concordo que as coisas só mudarão quando as próprias pessoas que pagam os impostos (nós,na verdade)se revoltarem ou fizerem algo para mudar.E mudar uma nação que vem com isso desde a sua colonização será um trabalho muito, muito ,muito árduo,mas não impossível. O exemplo começa de cada um,vale lembrar.

saudades dessa "coisinha" aí chamada de escola! HAHAHAHA.sucesso professor,saudades das tuas aulas tambem.
beijos.

(ah Celso,tu tambem faz muita falta OOOOO! )

Iara Emanuela disse...

Corrigindo.. * o MAL pela raís *

Eita que é só sair da escola pra desaprender. **;

Katia Raquel Testoni Longen disse...

Professor Evandro, muito pertinente seu desabafo. creio que, assim como você, todos so educadores cônscios do que é uma "educação de qualidade" estão sentindo-se representados na sua fala.
Parabenizo-o com admiração e respeito.
Sua colega de trabalho,
Kátia.

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